Porque devemos cuidar e Proteger nossa Chapada?
Estudo registrou movimentação da fauna por 90 dias, produzindo imagens de animais que costumam passar despercebidos.
É na Chapada do Araripe que fazemos trilhas protegidos pelas árvores e, ao sopé, esses caminhos, além de sombreados, são serpenteados por córregos límpidos. Nela, buscamos refúgio do calor e do estresse urbano aqui embaixo, em Cicerópolis e nas demais cidades da depressão sertaneja.
Nasce nesse território o pequi que roemos todos os anos e que até congelamos para saborear na entressafra. Escorre de lá a água de milhares de anos, filtrada pelo arenito do topo, que faz nossa região habitável. Mas é claro que a sociobiodiversidade do Araripe vai muito além da beleza cênica e dos chamados serviços ambientais.
Você já parou para pensar quantas espécies de animais vivem nesse território localizado no sul do Ceará e considerado um verdadeiro oásis no Sertão?
Um trabalho desenvolvido pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (CENAP), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), com apoio da BiodiverSe, associação sem fins lucrativos dedicada à pesquisa e à conservação da biodiversidade, utilizou câmeras instaladas em pontos estratégicos da Floresta Nacional do Araripe, a Flona que completou 80 anos de criação.
Durante 90 dias, 60 equipamentos registraram a movimentação da fauna, produzindo milhares de imagens de animais que muitas vezes passam despercebidos.
A bióloga Raquel Soares colaborou com a pesquisa e participou da triagem e identificação de mais de 15 mil registros. Entre as espécies fotografadas estão onça-parda, gato-mourisco, jaguatirica, cotia e zabelê. Há muitas em risco de desaparecimento, a exemplo do soldadinho-do-Araripe, ave endêmica do Cariri.
“Temos diversas espécies ameaçadas de extinção aqui na Chapada, como, por exemplo: zabelê, vira-folha, gato-do-mato-pequeno, gato-mourisco, veado, jacupemba, papagaio...”, lista Raquel.
As câmeras foram instaladas na Flona, mas a fauna desconhece limites dados por mapas. Os animais registrados também ocorrem na Área de Proteção Ambiental da Chapada do Araripe (APA).
No próximo dia 17, a Justiça Federal vai debater, em audiência pública na Unileão, a situação da Chapada do Araripe. A discussão ganhou força após o ICMBio publicar o Plano de Manejo da APA, que provocou questionamentos em razão da classificação de quase 90% do território como potencial zona de produção.
“O avanço do agronegócio pode representar uma ameaça bastante significativa à fauna pela retirada direta da vegetação nativa, fragmentação dos habitats, principal causa da perda da biodiversidade, com a redução de áreas de alimentação e reprodução, interrupção de corredores ecológicos, uso de agrotóxicos, alteração dos recursos hídricos e aumento de atropelamentos.”
No período seco, como o que devemos viver nos próximos meses, com o fortalecimento do fenômeno El Niño, que tem reflexos na estação chuvosa no Nordeste, os deslocamentos em busca de alimento e água se intensificam, como explica a bióloga.
Com a fragmentação do hábitat, isso independe do período, pois faltam esses recursos. A Chapada do Araripe é um refúgio para milhares de espécies que já tiveram que deixar outras áreas do bioma Caatinga por causa do avanço da ocupação humana. Agora, essa realidade avança sobre a altitude que permanecia preservada por décadas.
“Com o desmatamento, ocorrem mortes de animais, pois não é realizado um trabalho adequado de afugentamento e resgate de fauna. Então muitos acabam mortos pelas máquinas ou pelo fogo. Os que sobrevivem e conseguem se dispersar acabam se aproximando de áreas habitadas. Ou melhor, as áreas habitadas estão ocupando as áreas de vida silvestre, aumentando o encontro com o ser humano, inclusive ocasionando atropelamentos, ataques a animais de criação ou mesmo entrando nas residências, como de vez em quando vemos no noticiário”, conclui Raquel.
As imagens captadas pelos pesquisadores revelam uma vida que a maioria de nós jamais verá durante uma trilha. Seria irresponsável da nossa parte ignorá-las nas decisões sobre o futuro da Chapada do Araripe. O trabalho dos pesquisadores deve ser levado em consideração, sob pena de termos um prejuízo incalculável.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.